Amor, leva a minha Sacola?

06 jul

Conversa com um sambista

Era sempre assim: eu chegava no samba e lá estava ele. De chapéu Panamá, paletó verde-musgo e quadril inquieto. Não podia com um pandeiro. E como eu não posso com uma cuíca, a gente se entendia, cada um na sua. O óculos de aro preto indefectível do Carlos Elias mirava as mulheres sacolejantes e seguia impetuoso até elas, que nem sempre davam conta de tanto remelexo.

Um de nós deve estar sumido das rodas de samba, já que nunca mais o vi. Eis que descubro que ele, uma das personalidades mais interessantes de Brasília, é o produtor do Vive La France, projeto do Terraço Shopping que homenageia o ano da França no Brasil. Ótimo pretexto pra telefonar e descobrir por onde anda esse conquistador. Uma coisa precisa ficar clara: nunca conversamos antes na vida e provavelmente ele nem faz ideia de quem eu seja.

E então, você desistiu do samba? Nunca! Nem vou, é a minha razão de ser. O negócio é que eu tô mexendo com cinema agora, escrevendo um livro e produzindo shows - e show você sabe, não é só reunir gente pra tocar, também tem que ter uma razão de ser. Mas hoje eu vou num lugar que nem gosto de dizer o nome perto das moças… O Cafetina. É uma casa simples, não tem nada demais. Você sabe: se eu ficar saindo muito, não consigo focar nos meus trabalhos.

Continua jogando charme para as mulheres de bom grado? Como é que pessoa fala uma coisa dessas? [Muuuitas gargalhadas depois...]. Por que você não aparece lá no Cafetina hoje, hein?

Já trocou Brasília por Paris? Não, mas já morei na França. Depois que eu fui pra lá aprender samba [é isso mesmo], tentei colocar em prática aqui o samba no pé que descobri naquelas bandas. E o meu samba é assim: eu faço brincadeira na dança e não aquele malabarismo marcadinho, coreografado que o pessoal da dança faz. Eu fico inventando…

Eu também. É verdade que você era amigo do Cartola? Amigo não, mas cantei já com ele. [E aí veio uma aula privilegiada sobre o samba de raiz, a carreira do Cartola, Zé Kéti, Paulinho da Viola e Elton Medeiros no meio disso tudo. Posso dividir esse momento com quem quiser depois]

O Vive La France veio pra amolecer o coração das clientes do Terraço? Nãooo! Quer dizer, a música francesa é romântica por natureza. Você vai lá assistir, né? Fiz um repertório que mistura informação às canções. Vai ter bastante do Henri Salvador, que morreu recentemente. Sabia que ele reinvidicava pra si o título de fundador da bossa nova? Achava isso muito engraçado. A música dele tem qualquer coisa de bossa nova e de moderna, mas foi o João Gilberto quem fez aquele ritmo marcado… [E aí veio outra aula, dessa vez sobre o surgimento da Bossa Nova e a época áurea da MPB].

Quem quiser conversar com o Carlos Elias e/ou apreciar o diálogo entre a música francesa e a brasileira tem que ir pelo menos um dia no Vive La France.

6 COMENTÁRIOS

Rogério | 06/07/2009 9:15

Fantástica essa entrevista, a melhor que li em muito tempo, sem qualquer pretesnão e deixou a vontade de trocar uma idéia com o cara. Gostei ! Só não sei se ele vai ser simpático assim comigo

Deu vontade de sair sambando já, no meio do expediente! =) Beijos!

Raquel | 06/07/2009 11:24

Poxa, você descreveu direitinho a minha sensação sempre que vou a um samba em bsb e lá está ele! Quase um personagem caricato de si mesmo. Ah, parece também que tem um pessoal fazendo um documentário sobre ele, você está por dentro?

Antonio | 06/07/2009 14:58

Eu também.

[...] do mundo, uma escola de música incrível, grande parte da herança do rock dos anos 80, rodas de samba de primeira linha, festas polirítmicas e outras mil sonoridades latentes. Correm sérios boatos de [...]

[...] no Terraço, gente! Com ninguém menos que Carlos Elias, o sambista galã que eu tive a honra de entrevistar aqui no blog em 2009. Depois de ser compositor da Portela, dividir o microfone com o Cartola e se sacolejar [...]

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